Data: 16/10/2019
Conferência de Abertura: Uma carta na manga
Em tempos onde presenciamos a intolerância em ato, corriqueiramente, vejo uma grande oportunidade a discussão que se abre neste congresso. Apresentei o texto que se segue, em sua mesa de abertura:
Em tempos difíceis o psicólogo é convocado a responder a diversas demandas. Presenciamos tempos violentos e acolhemos os sujeitos em sua vasta gama de afecções, manifestações e desajustes. A violência pode ser estudada e compreendida por vários campos do saber. Por ora, restrinjo este trabalho a apontar os efeitos e causas da violência para o sujeito, efeito e causa como duas facetas de uma mesma moeda.
Temos a oportunidade de intervir, quando somos solicitados, em diferentes momentos da vida e do sofrimento psíquico de quem nos procura. Mas nossa tarefa de longe não é fácil.
Este congresso, vale-se como uma bússola, como um norte para pensarmos sobre este tema que atravessa a vida de todos nós e pode capturar o sujeito em um drama particular que paralisa e incapacita o mesmo em vários níveis e áreas de sua vida, podendo até mesmo, em ato, produzir ou reproduzir mais violência.
Desejo, por ora, lançar questões, que certamente estes três dias irão responde-las. Muitos trabalhos foram selecionados para compor esta discussão. Convidados, colegas atuantes também apresentarão seus trabalhos e seus achados frente aos impasses que a clínica nos coloca.
Como pontapé inicial para este momento, lanço mão de uma carta na manga, para iniciarmos e aquecermos este tema que nos debruçaremos estes próximos dias. A carta que escolho é o curinga. Não poderia deixar de citar este filme que me toca e me põe a trabalhar. Poderia o palhaço Arthur ter tido outro desfecho? A violência é produto de outra violência? E a insondável escolha do ser, pode operar como barra para frear a referida violência ou pode estrutura-lo em um modo de funcionamento que faz a manutenção de comportamentos tidos como violentos? É possível atuarmos preventivamente ou no caso de nosso protagonista, acolher verdadeiramente em uma escuta qualificada e menos burocrática, escuta esta que dá encaminhamentos e com isso, mudar o rumo de nosso anti-herói? Como suportar a violência da indiferença ou a violência de um Estado violento para alguns?
É difícil ser minoria, mas para alguns é insuportável. Nosso trabalho poderia valer-se como antagonista a estas questões, uma vez que oferecemos a palavra para quem não tem voz? Faço generalizações como figuras explicativas, mas tomo a prática como uma clínica que surge caso a caso.
Não trabalhamos com garantias e sim apostas, apostas no sujeito, que é possível livrar-se de seus fantasmas e achar soluções criativas e/ou possíveis sem ter que fazer “papel de palhaço”. Que a solidão da passagem ao ato, possa dar lugar a um ato com aplausos e um final feliz. Para muitos, não sem a ajuda de um psicólogo.
